segunda-feira, 28 de abril de 2008

O Parque Nacional Serra da Capivara




O Parque Nacional Serra da Capivara está localizado no sudeste do Estado do Piauí, ocupando áreas dos municípios de São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias. A superfície do Parque l é de 129.140 ha e seu perímetro é de 214 Km. A cidade mais próxima do Parque Nacional é Cel. José Dias, sendo a cidade de São Raimundo Nonato o maior centro urbano. A distância que o separa da capital do Estado, Teresina, é de 530 Km.
A maneira mais rápida de chegar ao Parque é através de Petrolina, cidade do Estado de Pernambuco, da qual dista 300 Km. A cidade de Petrolina dispõe de um aeroporto onde opera atualmente a Gol, e a BRA, ligando a região com Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. A criação do Parque Nacional Serra Capivara teve múltiplas motivações ligadas à preservação de um meio ambiente específico e de um dos mais importantes patrimônios culturais pré-históricos. As características que mais pesaram na decisão da criação do Parque Nacional são de natureza diversa:



- culturais - na unidade acha-se uma densa concentração de sítios arqueológicos, a maioria com pinturas e gravuras rupestres, nos quais se encontram vestígios extremamente antigos da presença do homem (100.000 anos antes do presente). Atualmente estão cadastrados 912 sítios, entre os quais, 657 apresentam pinturas rupestres, sendo os outros sítios ao ar livre (acampamentos ou aldeias) de caçadores-coletores, são aldeias de ceramistas-agricultores, são ocupações em grutas ou abrigos, sítios funerários e, sítios arqueo-paleontológicos;




- ambientais - área semi-árida, fronteiriça entre duas grandes formações geológicas - a bacia sedimentar Maranhão-Piauí e a depressão periférica do rio São Francisco - com paisagens variadas nas serras, vales e planície, com vegetação de caatinga ( o Parque Nacional Serra da Capivara é o único Parque Nacional situado no domínio morfoclimático das caatingas), a unidade abriga fauna e flora específicas e pouco estudadas. Trata-se, pois, de uma das últimas áreas do semi-árido possuidoras de importante diversidade biológica;




- turísticas - com paisagens de uma beleza natural surpreendente, com pontos de observação privilegiados. Esta área possui importante potencial para o desenvolvimento de um turismo cultural e ecológico, constituindo uma alternativa de desenvolvimento para a região. Em 1991 a UNESCO, pelo seu valor cultural, inscreveu o Parque Nacional na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade. Em 2002 foi oficializado o pedido para que o mesmo seja declarado Patrimônio Natural da Humanidade.O Parque Nacional Serra da Capivara é subordinado à Diretoria de Ecossistemas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), tendo sido concluída a sua demarcação em 1990. Em torno do Parque foi criada uma Área de Preservação Permanente de dez quilômetros que constitui um cinto de proteção suplementar e na qual seria necessário desenvolver uma ação de extensão. Em 1994 a FUMDHAM assinou um convênio de co-gestão com o IBAMA em 2002 um contrato de parceria com a mesma instituição. Depois de criado, o Parque Nacional esteve abandonado durante dez anos por falta de recursos federais. Análises comparativas das fotos de satélite evidenciaram esse fato. Durante este período a Unidade de Conservação foi considerada “terra de ninguém” e como tal, objeto de depredações sistemáticas.




A destruição da flora tomou dimensões incalculáveis; caminhões vindos do sul do país desmatavam e levavam, de maneira descontrolada, as espécies nobres. O desmatamento dessas espécies, próprias da caatinga, aumentou depois da criação do Parque, em decorrência da falta de vigilância. A caça comercial se transformou numa prática popular com conseqüências nefastas para as populações animais que começaram a diminuir de forma alarmante. Algumas espécies, como os veados, emas e tamanduás praticamente desapareceram. Estes fatos tiveram conseqüências negativas na preservação do patrimônio cultural. A falta de predadores naturais provocou um crescimento descontrolado de algumas espécies, como cupim ou vespas cujos ninhos e galerias destroem as pinturas.As causas desta situação são em parte externas à região, mas também decorrem da participação da população que vive em torno do Parque. São comunidades muito pobres, algumas das quais exploravam roças no interior dos limites atuais do Parque. Estas populações dificilmente compreendem a necessidade de proteger espécies animais e vegetais uma vez que os seres humanos apenas logram sobreviver.




Assim, a população local depredava as comunidades biológicas e o patrimônio cultural do Parque Nacional e áreas circunvizinhas, pela caça, desmatamento, destruição de colméias silvestres e a exploração do calcário de afloramentos, ricos em sítios arqueológicos e paleontológicos.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Peter Lund, pai da arqueologia paleontologia brasileira



O dinamarquês Peter Wilhelm Lund, nascido em Copenhagen, capital da Dinamarca em 14 de junho de 1801, era filho de ricos comerciantes.
Diplomado pela Universidade de Copenhagem, guiado por seu ardente interesse pelas ciências naturais, veio ao Brasil pela primeira vez em 1825. Buscava não só dar continuidade a seus estudos botânicos e zoológicos, mas também à procura de um clima mais benéfico para sua saúde debilitada por doença pulmonar.
Estabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde realizou um exaustivo levantamento de toda a vegetação da baixada fluminense. Realizou também estudos sobre o comportamento das formigas e procedeu à montagem de várias coleções zoológicas. Em 1829, volta à Europa, estabelecendo contato com as mais importantes autoridades em História Natural como Humbold e Cuvier, entre outras.
Em 1833 retorna, em caráter definitivo, ao Brasil. Ainda nesse ano, iniciou uma viagem para estudar a flora brasileira em companhia do botânico L. Riedel. No decorrer desta viagem, ao passar pela região de Curvelo, em Minas Gerais, encontrou um seu conteporâneo, o dinamarquês Peter Claussen, que explorava salitre nas cavernas calcáreas. Visitando então, as cavernas da região, Lund reconhece, pela primeira vez, as ossadas que se encontravam misturadas ao salitre. Diante destas descobertas, ele não hesitou e decidiu optar por uma nova área de pesquisas. Assim, após concluir os estudos "A Respeito da Vegetação dos Campos do Brasil", Lund fixou residência em Lagoa Santa, encontrando ali o lugar ideal para viver.
As primeiras grutas visitadas por ele na região foram a Lapa Vermelha e a Lapa Nova de Maquiné, tendo escrito com minúcias, os espeleotemas encontrados.



"Todos estes deslumbrantes primores da natureza são realçados
pelos mais delicados ornatos tanto de formas fantásticas quanto de
bom gosto, franjas, grinaldas e uma infinidade de outros enfeites,
cuja enumeração seria fastidiosa e incapaz de dar idéia da beleza
do conjunto àqueles que não o viram com os próprios olhos".
(Lund)



Nestas grutas foram encontradas, pela primeira vez, ossadas fósseis, destacando-se: o Smilodon Populator (tigre-dente-de-sabre), o Tatu Gigante e o Nortrotherium Maguinense (preguiça gigante). Eram fósseis notáveis pelo tamanho e de marcantes diferenças com seus similares mais recentes.
Lund pesquisou mais de uma centena de grutas, onde encontrou em torno de 120 espécies fósseis e 94 espécies pertencentes à fauna atual. A coleção de Lund é composta de espécies das seguintes ordens de mamíferos: Marsupiália, Chiroptera, Rodentia,Carnívora, Notungulata, Liptoterna, Artiodáctyla, Perissodactyla, Prosbocídea, Edentada e Primatas.
Suas pesquisas duraram 10 anos e a coleção, possuindo 14 mil peças ósseas, foi enviada para a Dinamarca, sendo posteriormente estudada por Herluf Winge e Reinhard.
Em 1844, Lund perde todo o seu vigor físico, abandonando as pesquisas de campo e passando a viver em completo isolamento, interrompendo, assim, todo o seu trabalho científico.



Lund - as várias facetas do cientista



Além de botânico, zoólogo e paleontólogo, Lund de também grande contribuição à arqueologia de seu tempo. Foi o primeiro a assinalar a existência dos sambaquis (montes de restos marinhos) no litoral brasileiro. Dava como certa a construÇão dos mesmos pelo homem e, assim sendo, se constituíam em valiosos sítios arqueológicos.
Fez mebção às inscrições rupestres encontradas em algumas grutas por ele visitadas e descreveu instrumentos líticos encontrados próximos às margens do Rio Tietê (SP) e em grutas mineiras.
Publicou diversos trabalhos junto à "Real Sociedade Científica Dinamarquesa", obtendo o reconhecimento dos grandes cientistas da época.

Foi ele também quem deu o primeiro passo para o estudo da ecologia brasileira, ao convidar o jovem botânico Eugene Warming para vir a Lagoa Santa fazer um levantamento dos cerrados na região. Um exaustivo estudo da vegetação foi então realizado, dando origem a um magnífico trabalho publicado em 1840 - o primeiro estudo mundial de Fitoecologia.


Lund - o homem



Além de grande cientista, Lund foi também o homem amigo e prestimoso para os habitantes da pequena Vila de Lagoa Santa, onde viveu os últimos anos de sua vida.
De hábitos bastante excêntricos e temperamento arredio, preferindo o isolamento, ele tinha, no entanto, constantemente a seu lado, o filho adotivo, Nereu Cecílio, que o auxiliava em tudo o que fazia.
Prestou inestimável construbuição à vida cultural do Arraial ensinando música e criando a primeira banda de música de Lagoa Santa - a Corporação Musical Santa Cecília.
Todos os seus bens, ele os distribuiu entre seu filho Nereu cecílio e entre algumas pessoas que o serviram, comprovando com isto, mais uma vez, seu caráter humanitário.
Ao pressentir a aproximaÇao de sua morte, ocorrida em 25 de maio de 1880, Lund determinou o lugar onde desejava ser sepultado - à sombra de um pequizeiro, num local aprazível onde costumava ir estudar. Lund era protestante e por isto seu desejo de ter um jazigo particular. No mesmo local foram sepultados seus colaboradores Bherens e Müller.
Em 1935 foi erquido, nesse local, um monumento a Eugene Warning e aLund por iniciativa da Academia Mineira de letras.
Há quase dois séculos atrás, Lund já se preocupava e alertava a todos sobre a importância da preservação do meio ambiente, especialmente das grutas e da vegetação que, àquele tempo, já eram destruídas e depredadas para exploração econômica. Em carta ao rei Cristiano da Dinamarca, ele externou seu desejo e preocupação, concluindo com muita sabedoria, que tudo seria muito diferente se a luz benéfica da ciência guiasse os trabalhos da indústria.

terça-feira, 25 de março de 2008

História redescoberta


Antes de fazer um documentário, o documentarista intui o tema. Mas é durante a filmagem que ele descobre exatamente o que está filmando. É assim que Vladimir Carvalho explica como seu novo filme, O engenho de Zé Lins, transcendeu a idéia inicial de homenagear o escritor José Lins do Rego, autor de obras como Menino de engenho ou Fogo morto, para se tornar uma espécie de retrato do tempo e do Brasil. Um retrato da decadência, em que o esquecimento da obra do autor é contemporâneo do colapso do espaço onde viveu e das transformações na vida nacional.O engenho de Zé Lins, que está sendo lançado sexta (dia 21), em Belo Horizonte, é o novo capítulo na obsessiva luta do diretor de O país de São Saruê e Conterrâneos velhos de guerra no sentido de construir um registro cinematográfico ao mesmo tempo crítico e poético da realidade brasileira.O projeto de O engenho de Zé Lins não surgiu por causa das comemorações do cinqüentenário da morte do romancista em 2007. “É uma idéia que já tem quase 60 anos. Tive minha cabeça feita para José Lins do Rego por causa do meu pai, que era fã dele e estudou no mesmo colégio”, explica. Depois de adulto, a idéia de fazer um documentário sobre o escritor surgiu como uma espécie de “identificação nordestina” (tanto Vladimir quanto José Lins do Rego nasceram na Paraíba). No início dos anos 1960, o cineasta pesquisava a história do Rio Paraíba. A proposta não era fazer um estudo acadêmico ou turístico, mas revelar o rio como uma espécie de acontecimento sociogeográfico. No processo, acabou indo ao encontro de cenários tanto da infância de José Lins do Rego quanto de seus romances, além da questão dos engenhos, da posse de terra, da decadência da economia rural nordestina quando a indústria açucareira começou a se fortalecer em São Paulo.Quartel-generalEm 2003, Vladimir Carvalho resolveu conduzir de uma vez por todas o projeto. Reuniu todo o material que já tinha sobre engenhos e se mudou de Brasília, seu quartel-general nas últimas décadas, para o Rio de Janeiro: “É lá que vivem os parentes de José Lins do Rego e onde estão os poucos arquivos que têm maior quantidade de imagens dele”, explica, referindo-se a acervos de jornais, da família do escritor e do cineasta Sílvio Tendler, outro obcecado com o documentário. “No fim das contas, acho que O engenho de Zé Lins acabou se tornando um filme sobre o Brasil contemporâneo, descoberto a partir de uma abordagem do Brasil agrário”, explica Carvalho.O engenho de Zé Lins se transformou em uma espécie de obra aberta, que o espectador pode abordar a partir de diversos pontos. Há quem aprecie, por exemplo, a ótica política. Vladimir Carvalho, sempre envolvido com a questão social, não poderia deixar de associar ao filme o fato de que o engenho onde José Lins do Rego cresceu é hoje assentamento de trabalhadores rurais sem-terra. “Mas a questão já estava presente na obra dele muito antes de o termo sem-terra existir: Moleque Ricardo antecipou toda a questão agrária, tanto em seu estágio atual quanto em outros momentos da história, como as ligas camponesas dos anos 1960”, diz o diretor.Mas há outras abordagens possíveis: O engenho de Zé Lins pode ser visto como uma obra que fala da narrativa, do documentário e do choque entre eles e a realidade. No filme, Vladimir Carvalho apresenta algumas imagens de Menino de engenho, dirigido por Walter Lima Jr., inspirado no romance homônimo de José Lins do Rego e filmado nos próprios locais da infância do autor. “O engenho de Zé Lins, um documentário, dialoga ao mesmo tempo com Meus verdes anos, que é o livro de memórias de José Lins do Rego, sua autobiografia, e com Menino de engenho, que é um romance, é ficção, mesmo inspirado em fatos ou pessoas reais”, conclui.


Currículo do ensino médio e fundamental terá conteúdo sobre história e cultura indígena


O ensino de história e cultura indígena e afro-brasileira passou a ser obrigatório para alunos do ensino médio e fundamental. Uma lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 10 de março inclui a obrigatoriedade da temática no currículo das escolas públicas e particulares.
Para Maria Helena Fialho, coordenadora-geral de Educação na Funai, a lei favorece a disseminação de informações relacionadas ao processo histórico e à importância dos povos indígenas na redução dos preconceitos. “A Funai se dispõe, nesse sentido, a fazer qualquer processo de discussão para contribuir na construção do componente didático indígena na grade curricular”, explica Maria Helena.
O conteúdo programático que se refere à lei incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil. Também será destacado o papel dos índios e negros na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.
A educadora e membro titular da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI), Pierlângela Nascimento Cunha Wapichana, acredita que a lei posiciona os povos indígenas em um novo patamar no cenário nacional da educação. “Nossa esperança é que o povo brasileiro reconheça a diversidade dos povos indígenas e que valorize e respeite essa diversidade. Somente nos preocupa a forma em que será repassado esse conhecimento aos estudantes”, afirma Pierlângela.
Segundo o Diretor do Departamento de Educação para Diversidade e Cidadania da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), Armênio Bello Schmidt, a lei valoriza a diversidade do conhecimento dos povos indígenas, exigindo esforço na formação dos professores não indígenas. “Os municípios e estados terão que criar alternativas para a formação e capacitação dos professores. Outro fator importante é a inserção da diversidade dos povos indígenas, a língua, religião, costumes, enfim, a cultura indígena, nos livros didáticos escolares”, afirmou Armênio Schmidt.

terça-feira, 18 de março de 2008

Escavações revelam muralha do séc. XVI

Os arqueólogos que estão a fazer escavações no Largo do Chafariz de Dentro, em Alfama, para aferir do estado de conservação de uma muralha (a fernandina, do século XIV) "esbarraram" numa outra, construída no século XVI e até agora totalmente desconhecida. Foram ainda achadas loiças, cerâmicas e vidros de luxo, uma espécie de "brindes" inesperados, que vão agora engrossar o espólio do Museu da Cidade. A substituição de uma conduta de saneamento da Simtejo - que obrigaria a esventrar o Largo do Chafariz de Dentro - foi a oportunidade de ouro para os arqueólogos partirem para o estudo da Muralha Fernandina. "Já se sabia que seria interceptado um troço na obra de saneamento. O que ninguém sabia era o estado de preservação, uma vez que parte foi desmantelada em 1765 para a construção do edifício da Alfândega de Lisboa", explicou ao JN Rodrigo Banha da Silva, do serviço de arqueologia do Museu da Cidade.Afinal, a Muralha Fernandina encontra-se em bom estado de preservação. Além desta, do século XIV, os arqueólogos detectaram outra, do século XVI, erguida para servir de reforço à original. "Foi uma surpresa. Isto demonstra que Lisboa foi, de facto, um império à escala mundial. Essa época de esplendor trouxe melhoramentos ao nível das infra-estruturas. As muralhas não foram excepção. Além de terem uma função defensiva eram portas de entrada", explica o arqueólogo.Segundo o responsável, a muralha do século XVI está assente em barrotes de madeira e ainda permanece no local a cofragem de madeira que serviu de alicerce à Muralha Fernandina. "Ficámos também muito surpreendidos com a variedade, quantidade e exuberância dos materiais encontrados, tais como cerâmicas, loiças e vidros de luxo", salientou.Uma vez que a Muralha Fernandina está bem preservada, optou-se por alterar o traçado da conduta da Simtejo, para minimizar os danos na infra-estrutura classificada como monumento nacional. A muralha atravessa o Largo de uma ponta à outra, seguindo o eixo da Rua dos Remédios. A ideia é desviar a conduta (para o lado do rio Tejo) de forma a causar o mínimo de destruição.O novo projecto para o traçado da conduta aguarda por luz verde do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, tutelado pelo Ministério da Cultura. Até lá, a substituição da conduta não será feita. Um impasse que serve apenas aos arqueólogos. Há mais de uma dúzia de anos que o Largo não pode ser usufruído na sua totalidade."É só cacos, só cacos"Quem reside paredes-meias com o Largo do Chafariz de Dentro já não pode ouvir falar em obras e buracos. Apesar da cratera aberta, os moradores mais velhos continuam a utilizar os bancos para um "dolce fare niente" acompanhado do sol primaveril, desdenhando, quase sempre, de quem governa a vida de cócoras remexendo em lixos seculares. "Nós não queremos saber de muralha nenhuma. Para que é que isso nos serve? Não é para tapar mais tarde? Queremos é o Largo arranjadinho. Este buraco com cheiro a esgoto é um antro de ratos e ratazanas", resmunga José Martins, um morador questionado pelo JN sobre o trabalho dos aqueólogos."O que é nos interessam os cacos? Eu vejo-os ali [os arqueólogos] a tirar baldes de lixo. É só cacos, só cacos. Ainda não os vi tirar de lá nada inteiro!", queixava-se, por seu turno, Juvelino Duarte, outro residente em Alfama.A forma como a muralha vai ficar assinalada após a substituição da conduta ainda não está definida. "Manter a muralha à vista seria uma opção muito cara", frisou Rodrigo Banha da Silva. Segundo o arqueólogo serão apresentadas propostas. Uma das hipóteses é a colocação de pedra branca no pavimento, no local exacto de passagem da muralha, além de uma placa explicativa para turistas e lisboetas.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Especialistas criticam herança burocrática deixada por d. João ao sistema tributário


O Planalto anunciou o envio de mais uma proposta de reforma tributária para o Congresso. A aprovação da proposta não deve ser fácil, principalmente em ano eleitoral. Para alguns especialistas, parte do caos tributário de hoje é herança do Brasil colonial e do período em que a família real portuguesa se instalou no Rio de Janeiro há 200 anos.
Em 1808, a maior parte dos impostos não era cobrada diretamente pela coroa. "Quem fazia a cobrança eram os 'contratadores'", afirma o historiador Carlos Gabriel Guimarães, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense).
Esses contratadores eram grandes comerciantes portugueses espalhados por todo o império. Eles compravam do Erário Régio (o Tesouro Nacional de hoje) o direito de explorar algum serviço público. A partir de então, tudo o que era arrecadado em forma de impostos ficava com eles.
"Os contratadores já existiam desde o período colonial, mas eles se multiplicaram depois que a família real portuguesa desembarcou no Brasil", afirma a historiadora Wilma Peres Costa, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
É que, a partir de então, algumas famílias influentes nascidas no Brasil passaram a reivindicar o mesmo privilégio. "Era uma moeda de troca. Como d. João acabara de se instalar no Brasil e precisava do apoio de pessoas influentes, ele concedia a elas o direito de explorar os impostos", afirma a historiadora.
Segundo Guimarães, o sistema gerava muita confusão e falcatrua. "Essa foi a grande herança para o sistema tributário de hoje", diz. "Era uma mistura de interesse público e privado. Não é à toa que a força da lei não vinga até hoje."
Impostos mais conhecidos
O historiador lembra que o Erário Régio gastava muito mais do que arrecadava. "Uma das soluções encontradas foi a criação de impostos para tampar buracos", diz.
Havia imposto para tudo. Pagava-se para utilizar os rios, para transportar escravos do Rio de Janeiro para Minas Gerais e para vender aqueles que conheciam algum ofício. Um dos tributos mais importantes era a cobrança de 10% sobre a herança e rendimento dos imóveis, criado em junho de 1808.
"Era o início do imposto predial", afirma o tributarista Alcides Jorge Costa, professor da faculdade de direito do Largo São Francisco, da USP (Universidade de São Paulo). "D. João criou tantos impostos que deixou o sistema bastante caótico", afirma.
Apesar do caos, Wilma diz que a criação de mais impostos era indispensável para a corte, que acabara de se instalar no Brasil e precisava arcar com o alto custo de transferir para o Rio de Janeiro todo o aparato administrativo que estava em Lisboa. "Isso significou uma das principais mudanças no sistema tributário nacional", diz a historiadora.
É que, até então, cada capitania encaminhava sua arrecadação para o Erário Régio em Lisboa. "Quando o Erário veio para o Rio, começou um conflito entre algumas capitanias, que resistiam em enviar sua arrecadação para outra capitania", diz Wilma.
Ela diz que Bahia, Recife e São Paulo, por exemplo, ficaram ressentidas com a nova posição ocupada pelo Rio. "Além disso, a abertura dos portos permitiu a entrada de recursos. Elas não queriam se desfazer de um dinheiro que antes não existia."
"A tributação foi um das motivações para a Revolução Pernambucana de 1817", afirma a historiadora. "A tensão entre as partes era muito grande. É o embrião do que conhecemos hoje como guerra fiscal."
Burocracia portuguesa
Para o advogado Gilberto Luiz do Amaral, presidente do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário), a maior herança de d. João deixou para o sistema tributário brasileiro é a burocracia.
"Herdamos muitos tributos que eram portugueses", diz. "O sistema da época tinha como objetivo gerar receita o mais rápido possível e mandá-la para a coroa."
Ele afirma que essa mentalidade de receita rápida não mudou nem com a independência nem com a proclamação da República. "Uma reforma profunda só começou a ser discutida no Brasil no começo do século 20."
Para melhorar o perfil do sistema de arrecadação, o Planalto envia uma nova proposta de reforma tributária para o Congresso.
Para Amaral, o projeto é tímido e a histórica burocracia deve continuar. "O que foi anunciado pelo governo é insuficiente para resolver o problema", afirma. "No ano passado, foi prometida uma grande simplificação nos impostos, mas o que foi apresentado mexe pouco na burocracia."


WANDERLEY PREITE SOBRINHO

Japoneses escrevem o nome na história da Amazônia



PORTO VELHO, RO – Trinta famílias de japoneses que embarcaram no porto de Kobe em julho de 1954 entraram na Amazônia Ocidental e hoje são reconhecidas pela contribuição ao crescimento socio-econômico da região. Elas chegaram ao porto de Belém (PA) a bordo do navio África Maru. Em seguida, subiram os rios Amazonas e Madeira, rumando para Porto Velho, capital do então Território Federal do Guaporé. Desbravaram a mata virgem nas terras doadas pelo governo, venceram doenças tropicais, plantaram e colheram. De 1954 até hoje, a partir da tentativa do cultivo de seringueira, os japoneses se dedicaram à criação de aves e ao cultivo de verduras e hortaliças. Do grupo inicial restam apenas sete famílias na Colônia 13 de Setembro, onde foram assentados. Dedicaram-se integralmente à agricultura e à avicultura. Muitos se mudaram para a cidade e para outras regiões. Todos viram a transformação do Guaporé em Rondônia e a criação e instalação do novo estado.
Na Colônia fica a sede da Associação Cultural 13 de Setembro fundada pelos imigrantes e seus descendentes. Heishiro Kuriyama, 71 anos – que chegou com 17 anos – é o atual presidente. “Chamou atenção de todos, ainda no porto, as palavras de encorajamento proferidas pelo capitão do navio: enquanto estão no navio, tudo bem, mas é depois do desembarque que começam as dificuldades. Uma vida rigorosa espera pelos senhores. Sejam persistentes e tenham coragem!”— ele recorda. “Calou fundo no coração de nós todos”.
Em julho deste ano, a colônia vai comemorar novamente sua chegada em Rondônia, há 54 anos. Em 2009, a festa será em Manaus. Os japoneses vão lembrar os 80 anos da imigração ao Estado do Amazonas.